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O Projeto

Ao mesmo tempo em que movimento significa mexer o corpo, ação, variação, significa também transformação. Transformar significa dar nova forma, no nosso caso, significa mudar a forma de se comunicar.

Movimento é o quarto Livro-CD do projeto cultural Música em Família, de Paula Santisteban e Eduardo Bologna, lançado em 2015. Em parceria com o Instituto Alana, o álbum é inspirado na Tropicália e tem como foco a voz da criança, sua expressão e autoria. Tem o objetivo de proporcionar momentos divertidos de interação da criança com a família, por meio de atividades artísticas e brincadeiras, e estreitar as relações entre a família e a escola.

O livro, em formato de um fanzine, é composto por seis estações. Cada estação possui um poema, uma canção e dois espaços de registro: um para ser realizado na escola, a partir das vivências dos alunos, e outro para ser desenvolvido em casa a partir da vivência com a família.

As estações são passeios por temas como: a interferência na voz da criança, seu desejo de ser ouvida e reconhecida pelo adulto, a vida no coletivo, as relações de amizade, as brincadeiras e possibilidades de se expressar por diversas linguagens, como a música, a dança, as artes visuais, o teatro, a poesia, etc.

O disco remete a uma sonoridade típica do final dos anos 60, no Brasil – com participação de mais de vinte músicos, entre a banda e a orquestra, regida pelo maestro Ed Côrtes.

Aqui você conhecerá essas e outras curiosidades do livro-CD, apresentado estação a estação. Também se aprofundará no tema, conhecendo as referências artísticas, culturais e pedagógicas que nortearam o projeto.

Boa viagem!

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A primeira cena do livro mostra uma criança parada em frente a uma caixa cheia de luz. Atrás dela, há pássaros voando. A poesia da imagem deixa livre a interpretação dos leitores para o questionamento do que seria essa tal caixa e o que representariam os passarinhos.

 

“A criança aprende pelo mundo sensorial, pelo olhar, cheiro, escuta. Essa descoberta você não tem na tela. A tela não tem cheiro, você não consegue sentir uma folha, pegar uma terra molhada, brincar na água gelada ou quente…”

Ana Lucia Villela.
Presidente do Instituto Alana.

 

Falando sobre os ruídos que interferem na voz da criança, a brincadeira é tentar descobrir por que ela está sentada ali, quem está falando com ela e o que está falando. É o momento em que pais e filhos percebem as vozes que falam com a criança em casa, na escola e no mundo por meio da mídia.

 

“Matraca, você não é minha senhora, minha mãe, minha confidente. Você tem botão. Você é coisa que liga e desliga. Você não é da minha família. Você não é minha melhor amiga. Você é só uma janela que brilha falso, que dá para lugar nenhum. Você é só uma caixa, que passa o tempo e deixa o tempo passar. Para de falar, que você não é gente. Matraca, vê se aprende… Eu falo por mim, falo e falo bonito. É uma pena você nunca poder me escutar. Matraca: Psiu!”

Paula Santisteban.
Diretora Artística do Música em Família, cantora e compositora.

 

Em sala de aula, os professores são convidados a refletir com as crianças sobre as influências da televisão e das vozes que falam com elas diariamente. A ideia é incentivar atividades em que os alunos sejam protagonistas e expressem a própria voz, por meio da produção de um fanzine e de uma música; deixando de serem apenas consumidores e tornando-se produtores de cultura.

 

“Eu acho que a televisão é um meio de comunicação e a criança é fascinada por isso. São imagens que se movem, com luz, som e falam com ela. Só que o que esse meio produz é muito díspar. Tem coisas muito geniais e coisas muito perniciosas para a criança. Televisão realmente é um eletrodoméstico, é um aparelho que fica em algum lugar. Mas aquilo que ele veicula tem de ser muito bem visto pelos pais para poder deixar que as crianças assistam a alguns conteúdos e não assistam outros.”

Tadeu Jungle.
É um artista multimídia e atua como fotógrafo,
poeta, roteirista e diretor de cinema e TV.

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Uma das memórias de infância mais marcantes da cantora Paula Santisteban é a inspiração para a segunda estação do livro. Quando ela era pequena, o pai dela ao chegar do trabalho seguia direto ao piano e reunia a família em sua volta. A maior mágica acontecia quando começava a tocar tango ou bolero. Isso porque a madrinha da menina a pegava pelas mãos e colocava seus pezinhos sobre o sapato dela, dançando em par, até a cozinha.

 

“Aquela cena nunca mais vai sair da minha cabeça até o último dia da minha vida. O contato com a mão dela, o corpo dela, a história dela, meu pai tocando, minha avó costurando… Isso nunca vai sair da minha cabeça. A música estava lá. É isso que a gente vem passar para as crianças e famílias. É essa vontade de estar junto, desfrutar através da música, da festa e do encontro.”

Paula Santisteban.
Diretora Artística do Música em Família, cantora e compositora.

 

A história reforça a importância do olhar do adulto para a criança e a comunicação pelo gesto, pelo toque, sem precisar das palavras. De acordo com a bailarina e coreógrafa Liliane de Grammont, quanto menor é a criança, menos ela consegue se organizar pela fala.

Para Liliane, aspectos emocionais podem ser avaliados pela expressão corporal, que representa o desenvolvimento da criança como um todo, psicológico, físico e motor.

 

“Brincadeira, arte e movimento são, por excelência, as linguagens não verbais através das quais as crianças se expressam desde o seu nascimento. Através do brincar a criança se descobre, descobre o mundo à sua volta, os espaços e as pessoas. Desde que nasce, a criança brinca e experimenta com seu próprio corpo, através dos seus sentidos. Ela toca, cheira, leva à boca, ouve, olha e assim assimila o que está ao seu redor. A criança brincando expressa suas emoções, descobre e é desafiada nos seus movimentos e habilidades. Descobre o que gosta, o que pode e aquilo que tem mais dificuldade.”

Adriana Friedmann.
Doutora em Antropologia, Mestre em Educação e Pedagoga.
Especialista nas temáticas da infância e do brincar.

 

Para saber mais sobre “O lúdico e as linguagens expressivas das crianças”, leia a entrevista completa com Adriana Friedmann.

 

 

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As crianças inventam o dia todo. Sem precisarem de muito, elas criam brincadeiras, palavras novas, histórias, músicas, teatrinhos, jogos, desenhos, pinturas… Podem se divertir sozinhas e também em grupo, seja na escola ou em casa.

A brincadeira, inclusive, funciona como um meio de comunicação entre elas e os adultos. Quando a família brinca junto, a criança pode contar o que gosta e descobrir as brincadeiras de infância dos familiares. Com isso, ela participa das memórias de infância dos adultos e os adultos resgatam a criança interior.

 

“Se você ligar o rádio hoje, 99% das músicas que estão sendo tocadas são sobre amor. Falta dele, excesso dele, vontade de se ter ou se ter perdido. As nossas músicas falam de borboletas, parangolés e de tantas outras coisas. Acho uma sorte muito grande poder falar com pessoas que têm essa sensibilidade e estão ávidas por esses assuntos. Acho que isso potencializa minha carreira como artista, de uma forma que eu nunca imaginei.”

Eduardo Bologna.
Diretor Musical do Música em Família, músico e compositor.

 

É nessa hora, inclusive, que esse coletivo vai se construindo através da ciranda. É o resgate da brincadeira de roda e as cantigas, uma das atividades propostas para as escolas, na terceira estação do livro. Neste contexto, é sugerida a reflexão sobre o que é coletivo e o que é individual. A praia é de todos? E a bola? E o pandeiro?

 

“Eu tenho um grande sonho de ter uma escola que ensine desde o início para a criança a ser coletivo. Eu sempre fui muito espontâneo nesse ponto de ação. Saio fazendo e quem vem, vem. Mas por mais que tu tenhas ações individuais e tens – não vou negar isso, eu sei que as coisas sempre são coletivas. Inclusive quando um líder fala ‘eu’, ouça na boca dele a palavra ‘nós’, porque ninguém faz nada sozinho.”

Carlos Eduardo Miranda.
Produtor musical, Miranda já lançou importantes nomes, como Raimundos, Skank, O Rappa, Móveis Coloniais de Acaju e Mundo Livre SA. Já atuou como jurado em vários programas de calouros do SBT, tais como Ídolos, Astros e Qual é o Seu Talento?.

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É comum ouvir que o povo brasileiro é todo misturado. Somos um caldeirão de culturas, resultado do encontro de portugueses, negros, italianos, espanhóis, índios e outras etnias. Somos todos amigos. Por isso, quando falamos em grupo e também em arte, falamos em diversidade.

A quarta estação do livro, denominada Pindorama, oferece aos alunos a compreensão das diferentes raízes étnicas e culturais entre as pessoas. Pindorama é o primeiro nome do Brasil, criado pelos índios, com o significado de Terra Livre dos Males.

Esse poema teve como referência o Manifesto Antropófago, que ocorreu no Brasil na década de 1920, filosofia fundada e teorizada por Oswald de Andrade. A mesma ideia inspirou o Movimento Tropicalista, adotado como inspiração artística do projeto Movimento.

 

“Uma coisa que faz parte da minha vida é a filosofia da antropofagia, que o Oswald de Andrade disseminou como sendo essa filosofia onde você consome o outro. O que você se apropria se torna parte de você. Não é “chupar” ideia, pegar a ideia e falar que é sua. É misturar, incorporar e isso vai fazer parte do seu trabalho, você vai ficando mais forte e adquirindo essa multiplicidade.”

Tadeu Jungle.
É um artista multimídia e atua como fotógrafo, poeta, roteirista e diretor de cinema e TV.

 

Entre 1967 e 1969, os tropicalistas se influenciaram pelo som que vinha de fora do Brasil, misturaram isso com as suas raízes, criando assim algo novo, ao mesmo tempo misturado e tipicamente brasileiro. Para saber mais sobre a Tropicália, leia entrevista com Alexandre Matias, jornalista especializado em música e comportamento.

 

“Uma vez um pessoal de uma editora ligou para mim e me pediu para ir a um hotel e conversar com uma pessoa, que ia entrar no festival, mas não tinha ainda a música escrita. Naquela época você tinha que mandar partitura. Eu cheguei e tinha um cara lá que cantou uma música para mim. Era Caetano Veloso. Cantou “Sem Lenço e Sem Documento” (Alegria, Alegria). Eu escrevi a melodia e mandei para a editora. Se eu não tivesse escrito, Caetano não ia entrar no Festival. Coincidiu que eu tocava na orquestra da Tupi, mas nos festivais me convidaram para ser o pianista da orquestra.”

Edmundo Villani-Côrtes.
É um renomado pianista, maestro, arranjador e compositor brasileiro.

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Além de reunir diversas influências artísticas, o Movimento Tropicalista se tornou um marco na produção cultural brasileira, devido ao contexto político em que estava inserido. Segundo o jornalista Alexandre Matias, como a Tropicália ocorreu em meio à ditadura militar, Gilberto Gil e Caetano Veloso, principais mentores do movimento, resolveram transformar aquele novo manifesto cultural em algo de choque, confrontando o público, o lugar comum e o status quo.

A característica do Movimento Tropicalista de reunir diversas influências e pedir a voz em uma época de censura pode ser comparada com a vontade da criança se expressar por meio do brincar.

 

“A arte nasce dos erros. O grande problema atualmente da arte é que os caminhos estão muito claros para todo mundo. Você entra no Google e já sabe onde tem que chegar. Quando você sabe onde tem que chegar, você pega a estrada asfaltada. Você nunca pega o caminho errado. E as vezes o caminho errado é o que dá no lugar bonito. Ninguém erra mais.”

Ed Côrtes.
É músico, maestro e arranjador.

 

Na estação 5, o tema principal é a poesia concreta e a valorização do aspecto lúdico da poesia. Na música Misture Bem, as crianças são convidadas a misturar palavras, tendo como resultado expressões novas e inusitadas.
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A grande mistura da Tropicália não ocorreu somente na música. Apareceu nas telas do cinema nas obras de Gláuber Rocha e subiu ao palco com as peças de teatro de Zé Celso.
Nas artes plásticas, foi representado por Hélio Oiticica, criador das obras Tropicália e Parangolé. O Parangolé é como se fosse uma capa, que só ganha vida quando vestida por alguém. Na sexta estação do Livro-CD, é sugerido que ele seja confeccionado e vestido pelos alunos, que podem se movimentar como bem entender.

 

“Se você for olhar a vontade suprema do seu filho é estar junto de você. Talvez essa seja a maior vontade dele. Ele não quer saber se você ganha muito ou pouco dinheiro. Ele não quer saber se você trabalha numa refinaria ou como advogado num escritório, se você é um ator da Globo – ele quer passar um tempo com você.”

Marcos Nisti.
Presidente e CEO do Instituto Alana.

 

A canção de encerramento A Voz é empolgante e sugere que as crianças se expressem livremente em um festival, se apresentando para os familiares, amigos e professores por meio de dança, música, teatro, vídeo, artes plásticas e todas as interferências propostas no projeto.

 

“O Movimento traz esse convite para que a escola valorize mais a criança como sujeito ativo. Nesse sentido é um convite ao educador também observar mais a criança, dar mais espaço e não querer ter a voz sempre. O adulto sai um pouco desse lugar de protagonista e passa a olhar para o que ele pode fazer no espaço e quais estímulos pode realizar para que aquela criança seja protagonista. Ela tem de ser, porque na escola quem é o principal sujeito de aprendizagem é a criança e os adultos estão lá para fortalecer isso.”

Ana Cláudia Leite.
Coordenadora de Educação e Cultura da Infância, do Instituto Alana.

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Ao fim do disco, a faixa-bônus Filho Fly laça os familiares e professores de vez, ao falar sobre a importância de criar “os filhos para o mundo”, como costumamos dizer; além da felicidade de vê-los realizando as próprias conquistas, apesar da insegurança que os familiares podem sentir ao deixá-los livres.

Essa sensação foi experimentada pelos artistas e idealizadores do Música em Família, Paula Santisteban e Eduardo Bologna. Já é tradicional o casal encerrar os discos com uma homenagem à filha Estela. Mas dessa vez foi por conta dela que ficou a “cereja do bolo” do projeto.

Quase como uma resposta à música dos pais, Estela compôs espontaneamente a canção Não Fique Triste, que antecede Filho Fly. E como a voz é mesmo das crianças, a composição de Estela é também um convite às crianças se expressarem por meio da música.

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