Qual a importância das brincadeiras e das artes para o desenvolvimento da criança?

Brincadeira, arte e movimento, são por excelência, as linguagens não verbais através das quais as crianças se expressam desde o seu nascimento.

Através do brincar a criança se descobre, descobre o mundo à sua volta, os espaços, as pessoas. Desde que nasce, a criança brinca e experimenta com seu próprio corpo, através dos seus sentidos. Ela toca, cheira, leva à boca, ouve, olha e assim assimila o que está ao seu redor. A criança brincando expressa suas emoções, descobre e é desafiada nos seus movimentos e habilidades. Descobre o que gosta, o que pode, aquilo que tem mais dificuldade.

Mais para a frente, a criança começa também a imitar o que outras crianças, adultos, bichos etc. fazem: é sua forma de assimilar o mundo à sua volta, compreendê-lo, vivê-lo.

As artes constituem também caminhos lúdicos de expressão: música, plástica, movimento. As crianças se fascinam com os sons, com a palavra, com as músicas, os diversos ritmos. Assim, elas incorporam diversos repertórios culturais, ao mesmo tempo em que criam e resignificam aquilo que o mundo à sua volta lhes apresenta.
Desenhando, pintando, dançando, movimentando-se, explorando diversos espaços e materiais, as crianças são desafiadas no seu desenvolvimento integral. Tudo é orgânico e está perfeitamente integrado.

Como a escola e o professor podem fortalecer a cultura da criança dentro da escola?

Em primeiro lugar, os professores precisam ter consciência de que cada criança traz para a escola uma bagagem multicultural do seu universo familiar: onde, pai, mãe, avós e outros familiares, cultivam valores, rituais, histórias, costumes, músicas, brincadeiras e todo um repertório muito particular e de misturas culturais, conforme a origem de cada um.

Convidando as crianças e suas famílias a trazerem estes repertórios para dentro da escola – brincadeiras, músicas, contos etc – o professor não somente acolhe cada criança e lhe dá sua particular importância e valor, como também ganha uma bagagem de conhecimentos e conteúdos absolutamente relevantes e significativos para todo o trabalho escolar.

Organizar feiras, festivais, festas de brincadeiras, artes, músicas e histórias convidando toda a comunidade, contribui para a inclusão da diversidade de crianças e culturas.

Quais são os desafios para garantir o brincar e as livres expressões dentro da escola?

Tempo livre, tempo de escolhas espontâneas, não somente na hora do recreio, oferta de diversidade de materiais, espaços e atividades. Conforme a escolha de cada criança a cada momento de livre escolha, o professor tem o privilégio de conhecer cada uma, suas preferências, suas habilidades, desafios e necessidades. Podendo assim repensar permanentemente propostas e atividade adequadas a cada grupo e idade.

Como escutar e dar voz às diferentes expressões e linguagens das crianças na escola e na família?

Em primeiro lugar é desafio do educador e da família dar tempo e espaço para que a criança fique livre para escolher do quê, com o quê e com quem quer brincar. Até mesmo se optar por brincar sozinha. Aos poucos e, a partir das percepções do educador do perfil e preferências de cada criança, cabe a ele escolher e propor diversidade de materiais, brincadeiras e outras atividades expressivas. Importante não exagerar querendo sempre que a criança esteja ‘ocupada’. E sempre observá-la, evitando interferir. Elas dizem muito, não só verbalmente, mas também e, sobretudo, com seus corpos, suas pinturas, suas músicas, suas escolhas, etc.

Qual a importância das memórias do resgate da infância para a formação do educador?

Considero esta a possibilidade primeira do educador compreender, a partir das suas próprias memórias de infância, do que amavam fazer, do que não gostavam, dos seus vínculos, dos seus espaços favoritos, das suas brincadeiras; dos seus medos e frustrações assim como das suas ‘felicidades’ com as pequenas coisas, afetos ou gestos; compreenderem porque é tão trascendental e fundante na vida e no cotidiano de qualquer criança ter a oportunidade de viver seu tempo de infância de forma adequada dentro e fora da escola.

Questões extras:

Como a criança se expressa coletivamente? Ou seja, como ela se expressa dentro do grupo que pertence? E como o grupo se expressa em relação ao externo?

Em qualquer grupo há crianças extrovertidas, tímidas, reservadas, alegres em alguns momentos, tristes em outros. Agressivas, pacíficas. Cansadas algumas vezes, agitadas outras, inseguras, líderes etc. etc. Como elas se expressam no grupo? Observando as brincadeiras e os diversos papéis que elas vão assumindo, é possível compreender os diversos perfis, comportamentos e posturas nos grupos. Não necessariamente uma criança que é tímida no ambiente escolar comporta-se da mesma forma na família ou em um grupo de pares em ambientes não formais.

Ter a sensibilidade de observá-las e escutá-las nos seus diferentes entornos, dá ao educador todas as pistas para conhecê-las um pouco.

A criança consegue se expressar mesmo quando é reprimida pelo adulto? Como?

As crianças se expressam sempre! Mesmo que reprimidas elas encontrarão – sozinhas ou com a sensibilidade de algum adulto que as escute ou dê espaço a estas expressões – caminhos para se colocarem no mundo e expressarem suas emoções. As crianças, todas, são resilientes por natureza: as suas doenças, agressividades, depressões, revolta, gostos, habilidades, dificuldades – vão aparecer de alguma forma no brincar, no desenho, no corpo, no movimento, no choro, etc. Por isso é tão importante possibilitar diversos canais expressivos para que ela descubra qual o seu. Ao adulto cabe também potencializar os mesmos.

Jogos eletrônicos, internet e tecnologia em geral trouxeram mudanças na forma de brincar da criança. Qual é o impacto disso na forma como ela se expressa?

As crianças têm estado mais angustiadas, nervosas, tristes, agressivas. Menos sociáveis, mais rápidas, mas também mais distraídas. Insatisfeitas, frustradas e hiper ativas ou chateadas.
Natureza, música, arte, movimento e brincadeira constituem o melhor remédio. Junto com escuta, afeto e troca.