Entrevista com Alexandre Matias. Dono do site Trabalho Sujo desde 1995, o jornalista cobre cultura, tecnologia e comportamento há vinte anos, com passagens por alguns dos principais veículos da imprensa brasileira.

 

Como surgiu a Tropicália e em qual contexto histórico?

Alexandre Matias: O Movimento Tropicalista começou no final dos anos 60, após o início da Ditadura Militar, que criou uma insatisfação generalizada na população. Apesar de termos a ideia que os anos 60 foram uma época de muita liberdade e experimentação, aqui no Brasil as coisas não aconteceram de forma tão ágil, como aconteceu na Inglaterra e nos Estados Unidos, justamente por conta da ditadura, que atrasou a evolução cultural brasileira, que já vinha acontecendo.

Se você for analisar os anos 50, a gente teve o nascimento de um novo cinema autoral, a criação do Teatro Brasileiro de Comédia, um movimento de poesia concreta e a influência do modernismo na arquitetura, com a construção do Copan e de Brasília. Houve uma série de movimentos culturais diferentes, de áreas diferentes, que mostravam que o Brasil estava caminhando com países do exterior e aos poucos estava absorvendo movimentos culturais que aconteciam em diversos lugares do mundo, perdendo o atraso principalmente em relação aos países do Hemisfério Norte.

A Ditadura Militar começou em 1964 e deu um basta nisso. Pegou todo mundo de surpresa, mas a produção cultural da época percebeu que aquilo podia atrasar o desenvolvimento do Brasil e começou a se voltar contra os novos presidentes brasileiros, os generais que tomavam conta do país e tomaram o poder pela força.

Antes do Tropicalismo, já houve um movimento de resistência e protesto, principalmente na canção e no teatro. O Teatro de Arena e a Canção de Protesto são movimentos que acontecem logo depois da Bossa Nova, que também era outra prova que a evolução da cultura brasileira estava acontecendo. Foi com ela que conseguimos ter uma exposição global pela primeira vez. Por mais que houvesse a Carmen Miranda e a Disney fizesse filme do Zé Carioca no Brasil, foi por meio da Bossa Nova que as pessoas começaram a entender o Brasil como um país específico da América Latina. Não era um paraíso tropical. Antes da Bossa Nova, os europeus e americanos tinham a impressão que Brasil era semelhante a México, Cuba e outros países latinos.

O golpe militar acontece quando a Bossa Nova começa a evoluir. Por isso, o Teatro de Arena e a Canção de Protesto começam a avisar o público que alguma coisa estava acontecendo e que aquele sistema não poderia continuar.

Em dezembro de 1968, com a instalação do AI-5 (Ato Institucional número 5), a ditadura fica mais rígida ainda e tira uma série de direitos das pessoas, caça deputados e faz que o presidente tenha mais poderes do que teria na democracia, instalando um clima de terror. A censura e a tortura passam a fazer parte do dia-a-dia do brasileiro e o clima político nacional fica muito mais pesado.

A Tropicália surge como uma tentativa de retomar a evolução cultural que estava acontecendo. Por acontecer em uma época pesada e de muito teor político, o Gilberto Gil e o Caetano Veloso, principais mentores do Movimento Tropicalista, resolvem transformar aquele novo manifesto cultural em uma coisa de choque, de confrontar o público, as expectativas, o lugar comum, o status quo. Tinha uma coisa de se vestir colorido e deixar o cabelo comprido. Aos poucos o Brasil começa a se alinhar ao que está acontecendo nos Estados Unidos e na Europa, que é o auge da contracultura.

Ela acontece só na música?

Alexandre Matias: A Tropicália não acontece só na música. O movimento da Tropicália é criado em uma mesa de bar com jornalistas e depois vai batizar obras do Hélio Oiticica. Está ligado também ao cinema, com o início do Cinema Novo, e ao teatro, com a peça O Rei da Vela, do Teatro Oficina, de Zé Celso. Além disso, a Tropicália está ligada a uma inquietação de diversos setores da vida cultural brasileira, que achavam que se não era possível enfrentar ou derrubar a ditadura, era preciso fazer para que a produção cultural continuasse com o processo que estava acontecendo naturalmente, mas que foi interrompido pelo golpe militar.

Tudo isso culminou com a criação do álbum Tropicália ou Panis et Circencis, formalizando a movimentação cultural. Antes, as pessoas falavam de Tropicália, sem necessariamente dizer que eram tropicalistas. Gil e Caetano, quando começaram com essa ideia de mexer com a estrutura da música brasileira, não chamavam isso de Tropicália. O rótulo que eles usavam era Som Universal. Mas depois eles assumem o papel de tropicalistas e criam o disco Tropicália ou Panis et Circencis, que inclui outros artistas, como Os Mutantes, Tom Zé e Nara Leão. Inclusive, Nara também vinha do Teatro de Arena e da Canção de Protesto. Ela fazia a ponte entre essas duas coisas e entendia que a música de protesto estava ficando mais reativa e conservadora, reproduzindo a agressividade da ditadura.

Acho que o melhor exemplo do que estava acontecendo com a cultura que a Tropicália resolve combater é a passeata contra a guitarra elétrica, que aconteceu em 1967, quando os músicos acreditavam que a guitarra elétrica ia tomar conta dos instrumentos acústicos brasileiros, descaracterizando nossa música. Como o golpe brasileiro estava ligado ao governo americano, você começa a ter uma série de manifestação contra tudo o que vem dos Estados Unidos. Foi uma generalização tão grotesca, quanto a generalização que a própria ditadura fazia, do que deveria ser a cultura. Com isso, a ditadura interrompeu esse processo de evolução que estava acontecendo a partir dos anos 50 e começou a alimentar uma cultura muito nacionalista, muito a favor do Brasil.

Mas logo após o lançamento do disco Tropicália ou Panis et Circencis, Os Mutantes lançam o primeiro disco, Caetano lança o primeiro álbum solo, com essa pegada Tropicalista e Gil também tem um segundo disco mais colorido e anárquico. Eles chegam a lançar um programa de TV, chamado Divino Maravilhoso, nome de uma das músicas dessa época, que passa algumas vezes na televisão, mas logo Gil e Caetano são presos e têm de se exilar do Brasil. Esse processo é completamente interrompido e a gente volta à obscuridade do início dos anos 60, com os artistas que não eram mais tropicalistas tendo de se adequar a um novo formato e ao mesmo tempo tendo de passar mensagens de forma cifrada em suas músicas para driblar a censura.

Como era o movimento esteticamente?

Alexandre Matias: Esteticamente falando, além das cores e de juntar diversos gêneros diferentes, a Tropicália aconteceu em uma época em que o Brasil ainda estava se industrializando, no auge do êxodo rural. O Brasil se torna urbano em 1972, quando tem mais gente morando na cidade do que no campo e a Tropicália trabalha essa dualidade. Todas as músicas tem em comum uma coisa de trabalhar com os opostos, som e silêncio, cor e preto e branco, cidade e o campo, o rico e o pobre, a mulher e o homem, a folga e o trabalho. Não era algo pensado e consciente quando criaram o movimento, mas aos poucos eles foram entendendo que aquilo fazia parte da nova linguagem. Aquilo era muito anárquico, muito bagunçado e caótico.

Eles também fizeram questão de colocar a guitarra, quando inscreveram suas músicas no festival da canção de 1968 da Record. Para o concurso, Gil escreveu Domingo no Parque e Caetano escreveu Alegria, Alegria. As duas músicas colocam a guitarra em primeiro plano e esfregam na cara do ouvinte, como uma provocação aos músicos que fizeram o protesto contra a guitarra elétrica.

A Tropicália era muito intensa. Mais é mais. Quanto mais cores, mais sons, mais pessoas falando – mais liberdade. Eles entendiam isso, mas o movimento foi interrompido de forma bruta.

Qual é a diferença entre a Tropicália e o protesto que ocorria antes, com a Canção de Protesto?

Alexandre Matias: Antes você tinha um protesto contra um novo governo militar. Os tropicalistas entendem que não é apenas sendo contra a ditadura, que você vai mudar algo. Eles retomam a Semana de Arte Moderna, de 1922, tendo uma série de referências a Oswald de Andrade, Mário de Andrade e Tarsila do Amaral, que também expunha a dualidade entre campo e cidade, usava cores e referências da história do Brasil, mostrando tanto a população indígena, quanto a indumentária da época do Império. Tinha isso de recontar a história do Brasil a partir dos principais marcos.

Qual legado a Tropicália deixou para a cultura brasileira?

Alexandre Matias: O Tropicalismo não foi muito popular em seu tempo. É um movimento que tem um alcance restrito, porque durou pouco. Ele foi protagonizado por artistas muito novos, que ainda estavam lançando seus primeiros, segundos discos.

Quando a gente fala de Gilberto Gil, Caetano Veloso, O Mutantes e Nara Leão, estamos falando de grandes artistas da história da música brasileira, mas eles estavam dando seus primeiros passos. Ninguém sabia que o Caetano Veloso se tornaria um dos principais artistas e intelectuais que o Brasil produziu e que o Gilberto Gil seria Ministro da Cultura. Ninguém poderia imaginar que eles atingiriam o status de importância que eles têm hoje.

Por isso, a Tropicália não teve um impacto direto pelo menos em termos de popularidade na época. Ela funcionou como uma bomba relógio, mas muitos artistas entenderam logo no princípio. Logo depois da Tropicália, você tem um movimento que por uma questão cronológica é chamado chama pós-Tropicalismo. São artistas que foram influenciados diretamente pela Tropicália, mas ao mesmo tempo não eram discos tropicalistas. O próprio Tom Zé lançou alguns álbuns assim. Walter Franco, Jorge Mautner, Jards Macalé – artistas que hoje não têm uma proeminência tão grande, mas no início dos anos 70 já mostravam que entenderam a lição e que o recado foi dado. São artistas que foram muito regravados. Muita gente deve conhecer músicas do Jards Macalé que foram regravadas pelo próprio Caetano. Valter Franco tem dois discos clássicos.

Dá para encaixar os Novos Baianos nesse grupo de pós-tropicalistas. Ao mesmo tempo, eles estão ligados ao rock brasileiro, jogando a música brasileira no rock. É a primeira vez que um grupo faz isso, seguido por outros artistas, como Raul Seixas.

A geração do rock brasileiro dos anos 70 entendeu que não precisa tocar apenas baixo, guitarra e bateria ou seguir o referencial dos Beatles. Eu posso colocar sanfona ou um frevo. Assim surgem artistas como Alceu Valença, Zé Ramalho e até Baby e Pepeu, que vem dos Novos Baianos, assim como Moraes Moreira. Principalmente artistas do nordeste, a exemplo do Fagner, aprendem que podem trazer sua linguagem regional.

Tudo isso vai influenciar o rock brasileiro dos anos 80, que a princípio soa muito rock, mas a gente já tem alguns artistas preocupados com a música brasileira e entendendo que aquilo poderia fazer parte. Os Paralamas do Sucesso fazem isso no disco Selvagem. Temos também Picassos Falsos e Camisa de Vênus. Se não fossem os tropicalistas, talvez tudo isso não teria acontecido desse jeito.

Nos anos 90, as coisas ficam mais claras e evidentes. A Tropicália começa a ganhar uma popularidade maior. Gil e Caetano voltam a gravar juntos e lançam um disco chamado Tropicália 2. Começam a aparecer livros, teses de Mestrado e Doutorado sobre a Tropicália. As pessoas começam a olhar esse período do final dos anos 60 como algo especial, como um movimento tão importante quanto o da Semana de Arte Moderna, em 22; e como a Bossa Nova, dos anos 50.

É preciso levar isso adiante. O Movimento Tropicalista também está ligado ao Manguebeat, que veio do Recife, de Chico Science e Nação Zumbi; assim como ao Pato Fu, Skank e Raimundos. Toda a geração dos anos 90 é necessariamente neta da Tropicália. Eles só poderiam acontecer, porque a Tropicália aconteceu. É uma importância que persiste até hoje, embora hoje eles não sejam tão lembrados, como há dez ou vinte anos.

Por que você acha que a Tropicália não é mais tão lembrada?

Alexandre Matias: Acho que existiu uma massificação muito grande de um tipo de cultura que fez as pessoas perderem referenciais do passado. Ao mesmo tempo, a gente está vivendo uma época em que há muita informação, muitas coisas que as pessoas precisam acompanhar, muitas notícias, muitas redes sociais, muitos links, computador no bolso, mensagem, ligação, e-mail… Aos poucos, a gente se desconecta de um legado cultural como um todo.

Se a Tropicália não tem apelo popular e não é todo mundo que sabe cantar as músicas dessa época, fica mais difícil para eles persistirem relevantes. Mas do mesmo jeito que isso aconteceu no início dos anos 70, tenho certeza que é uma fase e aos poucos vão redescobrir o Movimento Tropicalista mais uma vez. Haverá uma nova geração que vai ser influenciada por isso. Mas não tem como dizer, por exemplo, que Romero Brito não é um descendente direto da Tropicália. Ele só poderia acontecer, porque Gil e Caetano resolveram retomar a linha evolutiva da historia da música brasileira, que é uma frase que o próprio Caetano fala, na época do Tropicalismo.